quinta-feira, 2 de junho de 2016

SÉRIE  DOMINGOS CLÁSSICOS EM MINAS GERAIS ESTÁ DE VOLTA!!

A ESTREIA DO CONCERTINO Nº 1 DE RADAMÉS GNATTALI MARCA A VOLTA DA SÉRIE DOMINGOS CLÁSSICOS, UMA PARCERIA ENTRE O SESC PALLADIUM E A ORQUESTRA OURO PRETO, COM CURADORIA DE MARCOS SOUZA E RODRIGO TOFFOLO.
* Por Heloísa Godoy Fagundes




Na abertura da temporada 2016, a Série Domingos Clássicos – uma parceria entre o Sesc Palladium e a Orquestra Ouro Preto, com curadoria de Marcos Souza e Rodrigo Toffolo – realizou uma homenagem ao maestro e compositor brasileiro Radamés Gnatalli (1906 – 1988), com a estreia mundial de “Concertino para Piano, Orquestra de Cordas e Flauta”, obra escrita por Radamés em 1942. 

Pianista e arranjador gaúcho, Radamés Gnatalli  é considerado um dos grandes gênios da música brasileira do século XX. Sua obra transitou entre o erudito e o popular, tendo escrito uma série de composições para música sinfônica e de câmara, assim como um vasto trabalho dedicado à orquestração e arranjos de canções vinculadas a grandes artistas e cantores da música popular brasileira. Sua obra é extensa, mas grande parte dela ainda é desconhecida pelo público. 

“Radamés Gnatalli foi um dos responsáveis pelos primeiros respiros de uma música nacional brasileira. Transitou muito bem entre a música de orquestra e a música popular, por exemplo levando elementos do chorinho para suas composições eruditas”, afirma o maestro Rodrigo Toffolo.



Radamés Gnattali (1906-1988): um dos maiores responsáveis pela diluição das fronteiras entre o “erudito” e o “popular” no Brasil. Pianista, compositor e arranjador, atuou em praticamente todos os terrenos: deixou larga obra sinfônica e camerística e foi um dos mais importantes arranjadores brasileiros, com pelo menos cinco décadas de atuação em música popular. Deixou obras ainda por serem descobertas.

Em “Concertino para Piano, Orquestra de Cordas e Flauta”, Radamés imprimi uma linguagem tipicamente brasileira – característica de toda sua obra –, dentro de uma escrita moderna da música de concerto. “A peça possui uma ousadia harmônica, com um ritmo bem demarcado. Melodicamente, possui temas que podem ser facilmente encontrados na música popular brasileira”, avalia o maestro Rodrigo Toffolo.

O concerto, sob regência do maestro Rodrigo Toffolo, teve a participação especial do pianista brasileiro, radicado na Holanda, Luís Rabello. Com berço em uma família de músicos, o sobrinho do violonista Raphael Rabello é reconhecido pela imprensa europeia como “Embaixador da Música Brasileira”. 

Segundo Rabello, o Concertino n.1 é uma peça interessante para o pianista, a orquestra e, principalmente, para o público: “A obra apresenta uma textura bastante transparente onde o pianismo é explorado de maneira que remonta ao classicismo. Ritmos brasileiros, politonalismo e muitos elementos jazzisticos fazem parte da receita desta deliciosa obra que, com muito orgulho, estreei”, destaca.

Para o maestro Toffolo, “a presença de um pianista de carreira internacional junto à Orquestra Ouro Preto, comprova a importância crescente de nosso grupo na esfera internacional da música de concerto, assim como a importância do projeto Domingos Clássicos e do Sesc Palladium na democratização do acesso à música de concerto”, e finaliza dizendo: “o pianista Luís Rabello é um grande instrumentista, que tem ligação forte com a obra e até com a família de Radamés. Uma figura que traz a oportunidade de entender mais o universo desse compositor”, completa Rodrigo Toffolo. 

O concerto contou com outras três obras. Na primeira parte, “Suíte St. Paul”, do inglês Gustav Holst (1874-1934), e “Sonata  Op.27, No. 2 – Ao Luar”, do alemão Ludwig Van Beethoven (1770-1827), que também contou com a participação de Luís Rabello. Já na segunda etapa do concerto, além da peça de Gnatalli, foi executada a obra de outro brasileiro: “Mini Concerto para Cordas”, do manauara Cláudio Santoro (1919-1989).

“Foi um programa bem eclético, que trouxe dois compositores estrangeiros e dois brasileiros”, comenta Rodrigo Toffolo, ressaltando que a vocação da Orquestra Ouro Preto é valorizar a música sinfônica brasileira. “Temos como obrigação difundir a música de orquestra brasileira. E é importante, também, que o público saiba valorizar essa nossa produção, que é tão vasta”, finaliza o maestro.




Luís Rabello

O brasileiro radicado na Holanda Luís Rabello é sobrinho do violonista Raphael Rabello (1962 -1995) e reconhecido pela imprensa europeia como “Embaixador da Música Brasileira”. 

Detalhe da capa do álbum Tributo a Garoto (1982) com o maestro Radamés Gnattali e seu tio, o violonista Raphael Rabello.

Natural do Rio de Janeiro, o pianista brasileiro e artista da Virtuosi Produções¹, Luís Rabello, radicado na Holanda vem de uma família de músicos de renome. Estudou na UFRJ, no Conservatório Tchaikovsky em Moscow e concluiu seu mestrado na Holanda, no Conservatório de Rotterdan. Teve como professores Sônia Goulart, Moderhai Simone, Myrian Dauelsberg, Andrei Pisarev e Aquiles Delle Vigne.

Vencedor de vários prêmios no Brasil, atualmente Luís Rabello se dedica à pesquisa de toda obra para piano de Radamés Gnatalli, já tendo lançado um CD com algumas de suas peças para piano solo. Segundo o pianista, o interesse pela obra teve influência familiar. Seus tios Luciana e Raphael Rabello foram amigos e parceiros musicais de Radamés e desde que conheceu o sobrinho dele, Roberto Gnatalli, Rabello teve acesso a um rico acervo, com manuscritos e gravações do próprio Radamés ao piano. “Em pouco tempo percebi que estava diante de um tesouro que havia sido pouquíssimo explorado”, conclui Rabello.

O pianista tem realizado concertos na Europa em países como Alemanha, Bélgica, França, Espanha, Itália e Portugal. No Brasil, tem se apresentado nas principais salas de concerto, seja em concertos a solo ou com as mais importantes orquestras brasileiras.




ORQUESTRA OURO PRETO


A concepção de novos trabalhos no campo da música experimental rende, ao grupo, aclamação de público e crítica ao propor o 
diálogo entre os universos erudito e popular. De seu legado, registra-se o Prêmio da Música Brasileira, como melhor álbum de MPB de 2014 por Valencianas – músicas de Alceu Valença acompanhadas pela Orquestra Ouro Preto.

Buscando reviver a histórica vocação musical da cidade de Ouro Preto (Minas Gerais), Rufo Herrera e Ronaldo Toffolo, associados a um grupo de instrumentistas que integravam o grupo Trilos e o Quarteto Ouro Preto, criaram, no ano de 2000, a Orquestra Experimental da UFOP, hoje Orquestra Ouro Preto.

Ao longo de 15 anos de trabalhos ininterruptos, a Orquestra Ouro Preto é formada por cerca de 20 músicos, aos quais se associam músicos convidados, em função do repertório a ser executado. Tem como Diretor Artístico e Regente Titular o Maestro Rodrigo Toffolo.

Do repertório dito padrão, comumente executado por orquestras de todo mundo, a projetos de caráter artístico-pedagógico, a Orquestra Ouro Preto vem se destacando como um grupo de câmara de excelência, ao dedicar especial atenção à efervescência cultural da América Latina, com foco na música brasileira de concerto e nas demais manifestações musicais de países vizinhos, assim como a pesquisa e difusão do repertório vinculado à Escola Mineira de Compositores do século XVII.

A concepção de novos trabalhos no campo da música experimental, rende ao grupo aclamação de público e crítica, ao propor o diálogo entre os universos erudito e popular, formando novos públicos e dinamizando o acesso à música de concerto. São importantes referências o trabalho dedicado à banda The Beatles, a parceria com Alceu Valença e com o multiartista Antônio Nóbrega.


Foto a esquerda: Disco Latinidade – indicado ao 
Grammy Latino no ano de 2007.
Foto a direita: O erudito e o popular formando 
novos públicos e dinamizando o acesso à 
música de concerto. Aqui, a Orquestra Ouro 
Preto e o trabalho dedicado à banda The Beatles.

Em sua circulação anual, por diversas cidades brasileiras e em países como Bolívia, Argentina, Inglaterra, Portugal e Espanha.De seu legado, registra-se o Prêmio da Música Brasileira, como melhor álbum de MPB de 2014 por Valencianas – Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto; a Turnê Países e Comunidades de Língua Portuguesa, em parceria com a Missão do Brasil junto a CPLP, que teve como objetivo a divulgação da música latino-americana de concerto contemporânea; a gravação e lançamento do elogiado disco Latinidade – indicado ao Grammy Latino em 2007 e o documentário Compositores de Ontem e de Hoje, gravado para a TV France 5, com difusão na Europa e no Brasil, em 2005. Recentemente foram gravados o CD e o DVD Oito Estações – Vivaldi e Piazzolla e Concertos para Cordas – Antonio Vivaldi, ambos inéditos no Brasil.






MAESTRO RODRIGO TOFFOLO
Maestro Rodrigo Toffolo: Fundador e regente titular da Orquestra Ouro Preto.

Doutorando em Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa, Mestre em Musicologia pelo Departamento de Pós-Graduação em Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rodrigo Toffolo estudou regência com o Maestro e Compositor Ernani Aguiar – um dos principais compositores brasileiros em atuação e também um dos grandes pesquisadores de música brasileira.

Nascido na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, iniciou seus estudos acadêmicos em música no Instituto de Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto, no ano de 1989, através do violino com o professor Moisés Guimarães. Em 1993 prosseguiu seus estudos na Escola de Formação de Instrumentistas de Cordas (EFIC/SESI), em Belo Horizonte, continuando o aperfeiçoamento no instrumento.

Em 1998, deu continuidade aos estudos de violino no Curso de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais, sob a orientação do Professor Edson Queiroz. Seguindo para o Rio de Janeiro, estudou com Mariana Salles e posteriormente com Ricardo Amado. Atuou durante anos como violinista do Quarteto Ouro Preto e do Grupo Trilos, este último com gravação de programas em rede nacional e internacional.

Integrante do grupo Bateia, formação camerística que tem como propósito a pesquisa e interpretação da música brasileira, por meio de conceitos interdisciplinares, abre o seu campo de pesquisa através da Música, História, Antropologia e Sociologia, em projetos que culminaram na criação do Instituto Ouro Preto, uma associação de artistas e pesquisadores, cuja finalidade é a difusão da cultura de Minas Gerais e do Brasil. Fundador da Orquestra Ouro Preto, é seu Diretor Artístico desde sua fundação, no ano de 2000, assumindo, em 2007, a Regência Titular do grupo.

VIRTUOSI PRODUÇÕES¹ –  Situada em Belo Horizonte, é uma das principais agências de produção cultural do Brasil com ampla atuação no país e no exterior. Saiba mais clicando em: http://www.virtuosi.mus.br/


SAIBA MAIS SOBRE A ORQUESTRA OURO PRETO:
http://www.orquestraouropreto.com.br/
https://soundcloud.com/orquestra-ouro-preto
https://www.facebook.com/orquestraouropreto
https://www.youtube.com/c/OrquestraOuroPreto
https://www.instagram.com/orqouropreto/
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* Heloísa Godoy Fagundes é pesquisadora, ghost Writer e esportista. Amante da boa música, está há 10 anos no mercado musical de revistas. Já trabalhou na extinta Revista Weril e atualmente é publisher e uma das idealizadoras da Revista Keyboard Brasil.


quarta-feira, 1 de junho de 2016

ELZA SOARES - CANTAR É REMÉDIO BOM!

COM 60 ANOS DE CARREIRA MUSICAL E PRESTES A COMPLETAR 79 ANOS DE IDADE, ELZA SOARES COMEMORA O SUCESSO DE 'A MULHER DO FIM DO MUNDO', SEU MAIS RECENTE TRABALHO - LANÇADO EM OUTUBRO DE 2015 E RESPONSÁVEL POR UM DOS MOMENTOS DE MAIOR RECONHECIMENTO DE SUA CARREIRA, CONFIRMANDO SEU JEITO CAMALEÃO DE SE ADAPTAR ÀS NOVAS GERAÇÕES. A REVISTA KEYBOARD BRASIL TEM A HONRA DE TRAZER ESTE MÊS, UMA MATÉRIA E ENTREVISTA EXCLUSIVAS COM AQUELA QUE É CAPAZ DE CANTAR EM QUALQUER TOM E QUE TRAZ A AUDÁCIA E A CORAGEM COMO SOBRENOMES PARA O SOARES, DE ELZA DA CONCEIÇÃO.  



... Mas, de que planeta você veio? 
– Do mesmo planeta que o seu: do planeta fome!”

Comandando seu programa Calouros em Desfile, Ary 
Barroso (de óculos) não imaginava que aquela menina 
franzina seria, anos mais tarde, agraciada com o título 
de cantora do milênio pela BBC de Londres.

Este é o diálogo que inaugura a carreira de Elza Soares. O famoso apresentador do programa Calouros em Desfile, Ary Barroso, não poderia avaliar que esta sua ironia, a tentativa de desencorajar a pequena figura vestida com roupas muito maiores que ela, presas por alfinetes e trazendo os cabelos amarrados por duas 'chiquinhas', seria a previsão de que aquela não era mesmo uma menina deste planeta.
Louis Armstrong foi quem se reconheceu 
nela e a chamou-a de filha. 

Mulher, negra e pobre. Franzina. O prognóstico não era dos melhores. Casou-se pela primeira vez aos 12 anos, obrigada pelo pai. Alguns anos mais tarde, foi-se o marido, vítima de tuberculose. Viúva com 15 anos. Perdeu filhos ainda menina. O primogênito, muito doente, foi o motivo que a levou ao programa de Ary Barroso – escondida da família, que não aceitaria tamanha ousadia – em busca de dinheiro para remédios. Ganhou o prêmio. Inútil. O bebê não resistiu.

Entretanto, naquela noite, Ary Barroso reconheceria: “– senhoras e senhores, acaba de nascer uma estrela.”

Cinco filhos para criar. Trabalha de lavadeira, como a mãe. Operária, como o pai. Cantora de casas noturnas. Cantava onde se permitia que uma negra cantasse. O Brasil não permitia acesso a todos os lugares. E ela segue como crooner da bailarina Mercedes Baptista, em turnê pela Argentina.

Quando volta, encontra a situação complicada: com a morte do pai, as coisas ficam difíceis e Elza tem um sonho com seu genitor... “– Você será muito rica com a sua voz”. Mas a realidade era dura e sua mãe esbraveja: “– Pare de sonhar! Compra um jornal e vai procurar emprego em casa de família, que é bem melhor”.

Mas... de que planeta ela veio? 
- Do planeta audácia!

 Elza Soares e Mané Garrincha: um
 amor caro e dolorido.  

Ela não comprou jornal. Ligou o rádio. A Rádio Mauá procurava artistas e, assim, conseguiu um emprego: dividiria com Mão de Vaca um programa aos sábados, sem remuneração. Já no primeiro programa, um ouvinte liga para a rádio e pede que Elza o aguarde. Ele quer conversar. Era Moreira da Silva, que a convidou para cantar na boate Texas Bar. A visibilidade daquela boate promoveu contatos com Sylvinha Telles, uma grande incentivadora de sua carreira e, Lupicínio Rodrigues, cujas músicas consolidaram a presença de Elza Soares nos palcos e no cenário musical do país. A partir daí, vieram os discos pela Gravadora Odeon. 

Sambista que canta rock. Roqueira que mistura samba, jazz e soul. Eclética! Livre! Ousada! É mesmo difícil de entender. Uma outsider, na definição de Chico Buarque de Hollanda. É mesmo duro de engolir tamanha audácia e coragem. É mais difícil de aceitar quando este comportamento vem de uma mulher, negra e pobre. Seria difícil nos dias hoje. Era muito mais nos anos 50. Ela era e é, mestre na arte de confundir.


1962  foi ano de Copa do Mundo. Airton e Lolita Rodrigues contrataram vários artistas através do programa Clube dos Artistas para se apresentarem nas concentrações da Seleção Brasileira. Elza Soares estava entre eles e foi designada como a madrinha da seleção. Assim, ela viaja para o Chile. Para cantar no início dos jogos. 

Mas... de que planeta ela veio? 
- Do planeta coragem!


Audácia e coragem como sobrenomes 
para o Soares, de Elza da Conceição.


A coragem com que enfrentou a lata d'água que o destino lhe punha na cabeça é que lhe ensinou as vocalizações que, no Chile de 62, seriam o ponto de identificação com Louis Armstrong, de quem nunca havia ouvido falar, e que estava também na comitiva de artistas. Ele, afinal, foi quem se reconheceu nela e a chamou-a de “filha”. 


Fosse só Louis que ela conheceu no Chile! Houve mais. Aconteceu ali o início de um grande caso de amor, que duraria 17 anos e lhe daria mais um filho. Em retrospecto, é fácil entender a atração dos dois: grandes talentos. Ela, a voz e a força. Ele, as pernas tortas e toda a carência deste mundo. Um apaixonado por passarinhos! Era ele próprio, um bichinho assustado.

Este amor foi caro. Dolorido. Mané Garrincha bebia. Vítima da ignorância: desde pequeno lhe ofereciam, por brinquedo, doses da branquinha... Nunca mais se livraria do vício. Ela não entendia. Ele se conformava, retraía. Ela se indignava, crescia. Ele encontrou em Elza, uma grande defensora. Alguém que se ocupou e cuidou dele. Defendeu seus interesses. A união foi extremamente mal vista. 

O Brasil, mais uma vez, não entendeu. E jogou pedras, literalmente. Elza brigou, como lhe é peculiar. Esbravejou, buscou soluções. De nada adiantou. O máximo que conseguiu foi uma invasão em sua casa, naqueles anos, na década de 60 em que nem o Brasil nem os brasileiros podiam entender muita coisa. Por isso, a mudança para a Itália.

Nesta época, Elza já era conhecida mundialmente como cantora  e Garrincha era aclamado como jogador. O casal fazia sucesso na Europa. Elza fazia shows. Substituiu Ella Fitzgerald em uma turnê. Tudo ia bem. E, então, voltam ao Brasil. Um casamento conturbado e cheio de problemas. Separam-se, afinal. Garrincha falece por cirrose hepática, aos 49 anos. Deixa 14 filhos, apenas um de Elza Soares.

Mas... de que planeta ela veio? 
“- Do planeta dor!


Elza Soares: considerada a melhor cantora do 
milênio pela BBC e descrita como uma mistura explosiva 
de Tina Turner e Celia Cruz pela Time Out.


O filho que ela teve com o jogador sofre um acidente de carro e não sobrevive. Já era demais. Nem cantar Elza conseguia. E ela desiste. Muda-se para os Estados Unidos, mora em várias cidades até estabelecer-se em Nova Iorque onde, devagar, vai ressurgindo... Seu apelido? Fênix. Cabe bem! Amante dos saltos, obstinada, talentosa. Incansável! Eleita a cantora do milênio pela BBC de Londres.

Nem mesmo a queda no palco foi capaz de tirá-la de lá. Ela canta sentada, mas canta. Canta maravilhosamente pois a música faz parte dela, nasceu com ela, cresceu com ela. A mesma atitude que Elza teve, tão menina, quando enfrentou Ary Barroso e o auditório inteiro rindo de sua condição. Esta mesma atitude Elza manteve a vida inteira. 

Ninguém entendia como uma mulher pudesse enfrentar seu destino com tamanha coragem. Ninguém compreendia como ela poderia viver transbordando alegria, se a vida lhe dava tanta porrada. “É que eu gosto de revidar”, respondeu certa vez. E, seguia, revidando. Pois ela é Elza, obstinada! Livre! Ousada! 

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Para escrever este texto foram utilizadas entrevistas realizadas com Elza Soares (Programa Ensaio, Programa Roda Viva, Revista Quem) e o documentário BIS – O gingado da nega. Dentre todas as características de Elza Soares, a mais marcante é a humildade. A forma como ela se coloca sempre em segundo plano, como se preocupa sempre com o outro. Em tempos de carestia, a preocupação é constante: preciso alimentar meus filhos. Quando ela diz “O Brasil me deve”, refere-se à injustiça do Brasil em relação ao reconhecimento de Garrincha. Em nenhum momento foi “ela”, sempre os outros. Ingênua, simples, humilde. Não são estas as características que definem a grandiosidade de alguém? Adorei você ainda mais, Conceição. Além da Elza, a Conceição. (Marina Ribeiro).


A Mulher do Fim do Mundo 
Gravadora: Circus/Natura Musical


Lançado em outubro de 2015 e o 34º de sua carreira, seu álbum mais recente atende pelo nome de A Mulher do Fim do Mundo e é responsável por um dos momentos de maior reconhecimento de sua carreira. Por que? Simples, além de ser considerado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como o Melhor Álbum do ano passado e trazer onze faixas que transitam por gêneros diversos, como samba, rock, rap e eletrônico, o projeto traz letras críticas, mais do que atuais sobre a vida urbana de São Paulo, a partir de temas como transsexualidade, violência contra a mulher, drogas, sexo e morte. Gravado no Red Bull Studio São Paulo. 

“Um presente, uma dádiva.” É assim que Elza Soares descreveu o encontro com o grupo de músicos, compositores e instrumentistas, expoentes da nova geração paulistana responsáveis pela criação do novo álbum. Das 50 músicas, apenas 11 foram selecionadas. Isso significa que mais adiante haverá continuidade do projeto.  

Por trás do projeto estão os Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral, Romulo Fróes e Celso Sim, que, com o produtor Guilherme Kastrup, são responsáveis pela criação e estética do novo álbum.


Na Europa, a previsão de lançamento de A Mulher do Fim do Mundo é para o segundo semestre.





Entrevista...
"A música é o remédio da alma. Sem a música eu não estaria viva!" - Elza Soares


Revista Keyboard Brasil: Quando Elza Soares, que nunca estudou música, imaginou que seria uma grande cantora?
Elza Soares: Eu nunca imaginei que chegaria onde cheguei. Acho que essa é a minha missão na Terra. Meu pai tocava violão, fazia saraus e eu gostava de acompanhar. Os amigos diziam: - Olha, essa menina leva jeito! E eu fui gostando daquilo.  

Revista Keyboard Brasil: Sérgio Cabral (jornalista, escritor, compositor e pesquisador brasileiro), que biografou cantores e compositores, disse certa vez que "você tem um potencial de voz tão privilegiado que pode cantar em qualquer tom. Acompanha qualquer modulação e é capaz de, em certos momentos, nem perceber que mudou de tom, pois faz isso naturalmente". Aprimorou com alguém esse jogo que você faz com sua voz?
Elza Soares: Nunca. Isso foi Deus quem me deu.

Revista Keyboard Brasil: Durante um tempo você foi injustiçada no Brasil. Afastou-se da carreira quase abandonando o que você sabe fazer de melhor. Lá fora, mais precisamente em Londres, você é aclamada como a rainha do samba. Arrepende-se por não ter saído do Brasil para tentar carreira fora do país quando Luis Armstrong a incentivou?

Elza Soares: Sim e não. Sim porque talvez lá fora eu fosse mais valorizada, aclamada de uma maneira melhor. E não porque meu país é o Brasil Eu amo isso aqui. Sou brasileira até o pé. Acredito que eu não conseguiria ficar longe do meu país para sempre.

Revista Keyboard Brasil: Você foi eleita em 2000, a “Maior Voz do Universo” pela Rádio BBC de Londres. O que pode nos dizer sobre isso?
Elza Soares: Não esperava. Me assustei bastante, porque eu sou uma artista que a rádio não toca. Também não apareço na TV. Faço shows pelo Brasil e pelo mundo e só. Então, eu não esperava mesmo. Talvez porque estive lá, não sei.  

Revista Keyboard Brasil: Elza, você já fez parcerias com grandes pianistas como Dom Salvador, José Miguel Wisnik, Moacir Santos, João Donato, Antonio Adolfo e Tom Jobim. Caçulinha uma vez disse que o sonho dos pianistas brasileiros era poder acompanhar você. Duas perguntas: primeira, pode nos dizer sobre suas parcerias com os grandes pianistas? E, segunda, você se lembra de todos os que passaram por sua vida musical? 
Elza Soares: Bom, minhas parcerias foram acontecendo, nunca planejo nada. Minha vida foi e sempre é assim. Igual aquela música: deixa a vida me levar... Trabalhar com Dom Salvador foi maravilhoso! Todos eles foram maravilhosos! São grandes pianistas e por isso, inesquecíveis.

Revista Keyboard Brasil:  Arrependeu-se de algum trabalho, algum disco que você não teve prazer em fazer? Fez por obrigação?
Elza Soares: De alguns sim. Eu não participava da escolha do repertório. Mas tinha que fazer. Era paga para fazer, então eu fazia. Mas me arrependo sim. 

Revista Keyboard Brasil: “My name is now, Elza Soares”, é um documentário de Elizabete Martins Campos, sobre sua vida e que é um enorme sucesso. Participou das ideias sobre a concepção do documentário ou apenas como a grande protagonista? Pode nos contar sobre isso? 
Elza Soares: Elizabete fez um trabalho muito bom. Participei das duas maneiras, mas não tinha muita ideia do que seria. Vivi muita coisa, eu não saberia organizar.  

Revista Keyboard Brasil: “A mulher do fim do mundo” é seu primeiro disco composto só de músicas inéditas. Como surgiu essa ideia? Como foi a escolha do repertório?
Elza Soares: São músicos maravilhosos de São Paulo, cada um melhor que o outro! A ideia foi do Celso. Fizemos 50 músicas e escolhemos apenas 11! Então podemos até pensar numa continuidade para esse trabalho tão lindo e que me deu muita alegria em fazer! 

Revista Keyboard Brasil: Durante a gravação de “A mulher do fim do mundo” você perdeu seu quinto filho, Gilson Soares, de 59 anos, por complicações derivadas de uma infecção urinária. Você passou por momentos muito difíceis ao longo de sua vida e nunca parou de cantar. Sente-se forte com a música?
Elza Soares: A música é minha fortaleza. Me agarro com todas as minhas forças. Por isso que eu estou aqui, firme e forte. A música é o remédio da alma. Sem a música eu não estaria viva!

Revista Keyboard Brasil: Para encerramos, pode nos dizer sobre o convite para o projeto onde interpretou músicas de Amy Winehouse (para quem não sabe, o pai da cantora, morta em 2011, veio ao Brasil no final do ano passado para a turnê de seu álbum, Rush Of Love e fez questão que Elza Soares tivesse uma participação especial nos shows)?
Elza Soares: A Amy era sensacional. Uma voz maravilhosa. O convite veio do pai dela e eu aceitei numa boa. 

Revista Keyboard Brasil: Muito obrigada por nos conceder um tempo em sua agenda para a realização dessa entrevista! Sucesso sempre!!!
Elza Soares: Muito obrigada! 




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* Marina Ribeiro é profissional de marketing, atua em comunicação digital e e-commerce e é colunista da Revista Keyboard Brasil. Mantém uma loja virtual de roupas infantis e escreve por prazer. Geminiana, seu maior desafio é manter o foco.



* Heloísa Godoy Fagundes é pesquisadora, ghost Writer e esportista. Amante da boa música, está há 10 anos no mercado musical de revistas. Já trabalhou na extinta Revista Weril e atualmente é publisher e uma das idealizadoras da Revista Keyboard Brasil.




Home Studio: Interface de áudio - Parte 1 -

POR QUE É INDISPENSÁVEL O USO DE UMA INTERFACE DE ÁUDIO ESPECÍFICA PARA GRAVAÇÃO E REPRODUÇÃO DE ÁUDIO DE ACORDO COM AS NOSSAS NECESSIDADES? LEIA O TEXTO E SAIBA A RESPOSTA!

* Por Murilo Muraah 

A Focusrite Scarlett 18i20, interface de áudio 
que conta com 18 entradas e 20 saídas.


Na última coluna, pudemos entender melhor quais características podemos buscar em um computador que será utilizado em nosso home studio: sistema operacional, questões de compatibilidade, mobilidade, processamento, memória RAM, HD/SSD, conexões... Mas por que não vimos nada sobre a placa de áudio do computador? Afinal, quem é que nunca usou a entrada de microfone do computador para realizar gravações caseiras?

Se queremos ter um home studio para realizar trabalhos com um nível profissional de qualidade, as placas de áudio que já vêm com os computadores não serão capazes de nos entregar aquilo que precisamos. Por isso, é indispensável o uso de uma interface de áudio específica para gravação e reprodução de áudio de acordo com suas necessidades. Lembra de tudo aquilo que apontei em minha primeira coluna aqui na Revista Keyboard, publicada na edição de novembro de 2015? Saber como você irá utilizar seu home studio será fundamental para escolher uma interface de áudio adequada. Mas antes de falarmos sobre isso, vamos entender melhor o que faz uma interface de áudio.

A principal função de uma interface de áudio, muitas vezes chamada também de placa de som ou placa de áudio, é converter o sinal analógico para sinal digital (conversão A/D) e vice-versa (conversão D/A). Isso significa, por exemplo, que os sinais elétricos de uma voz captada por um microfone serão convertidos em informação digital (conversão A/D) pela interface. Essa informação digital poderá ser reproduzida, armazenada e processada em nosso computador e, passando pela interface, será convertida em sinais elétricos (conversão D/A) que poderão ser reproduzidos por nossos fones de ouvido ou caixas de som. Mas as interfaces de áudio voltadas ao mercado de áudio profissional podem oferecer não apenas a conversão A/D e D/A, mas também outros recursos: pré-amplificadores, DIs, DSPs, processadores de efeitos, entre outros, dependendo do modelo utilizado.

Behringer U-Phoria UM2, interface de 
áudio com 2 entradas e 2 saídas.

Uma das primeiras coisas a se pensar quando escolhemos uma interface de áudio é a quantidade e tipos de entradas e saídas que iremos utilizar. Para um locutor, uma interface com apenas uma entrada de microfone e uma saída para fones de ouvido talvez seja suficiente. Em um home studio que pretende gravar bandas, o número de entradas e saídas precisará ser mais amplo e diversificado.

Um exemplo prático para facilitar a compreensão: se alguém estiver montando um home studio porque pretende gravar seu grupo musical formado por bateria, baixo, teclado, guitarra e três vozes, deverá se fazer perguntas como:

- A monitoração  dos  músicos  será  feita  individualmente  ou todos  ouvirão  a  mesma mixagem enquanto gravam?
-  A  bateria  será  acústica,  eletrônica  ou  programada? Caso seja acústica, quantos microfones serão utilizados para fazer a captação?
- Baixo, teclado e guitarra serão gravados em linha ou serão amplificados?
- Os instrumentos e as vozes serão gravados ao mesmo tempo ou separadamente?

Essas e outras perguntas ajudarão a definir as características da interface de áudio que será capaz de atender às necessidades daquela pessoa. Continuando o exemplo acima, ela poderia chegar às seguintes respostas:

 - A monitoração dos músicos será estéreo e independente durante a gravação, para que cada um possa ouvir seu próprio instrumento com melhor qualidade nos fones de ouvido  enquanto tocam;
- A bateria será acústica e pretendo gravá-la com até 8 microfones;
- O baixo e o teclado serão gravados em linha, a guitarra será amplificada;
- A bateria pode ser gravada sozinha (até 8 entradas, 1 saída), baixo, teclado (estéreo) e   guitarra (1 microfone para captar o amplificador) podem ser gravados juntos (4 entradas,  3 saídas), a voz principal deve ser gravada sozinha (1 entrada, 1 saída) e os backing vocals (1 a 3 microfones) podem ser gravados juntos (até 3 entradas, até 3 saídas).

Com essas informações, conseguimos chegar às seguintes conclusões:

- A interface deverá ter pelo menos 8 entradas, pois esse será o número máximo de  entradas que serão utilizadas ao mesmo tempo (ao gravar a bateria);
- A interface deverá ter pelo menos 4 saídas estéreo ou 8 saídas mono, pois esse será o número máximo de saídas que serão utilizadas ao mesmo tempo (sinal estéreo da pessoa que estará operando a gravação e 3 saídas estéreo de monitoração que serão enviadas  ao baixista, ao tecladista e ao guitarrista - ou aos 3 vocalistas executando os backing vocals).
"Uma das primeiras coisas a se pensar quando escolhemos uma interface de áudio é a quantidade e tipos de entradas e saídas que iremos utilizar." - Murilo Muraah 
Outros fatores também precisam ser considerados, como a necessidade de uso de um microfone de comunicação entre a pessoa operando a gravação e os músicos (principalmente caso fiquem em salas diferentes, o que exigiria mais um canal de entrada na interface de áudio), de expansão dos canais (algumas interfaces permitem a expansão do número de canais com o uso de outros equipamentos), de uso de amplificadores ou distribuidores de fones de ouvido, etc. Mas acredito que o cenário acima já oferece uma boa ideia de elementos básicos que precisamos entender antes de partir para a escolha da interface de áudio.

É importante lembrar ainda que existem diferentes tipos de entradas e saídas e outras características importantes que também deverão ser levadas em conta na hora de escolher sua interface. Mas isso será abordado com mais detalhes na próxima coluna.
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*Murilo Muraah é Bacharel em Comunicação Social pela FAAP e proprietário da Muraah Produções, onde atua como professor de áudio analógico e digital, produtor musical, compositor de trilhas sonoras e músico. Possui vasta formação, com cursos realizados dentro e fora do Brasil, incluindo: Diploma de Música (Southbank Institute of Technology - Brisbane/AUS), Formação de Apresentadores de Rádio (Rádio 4EB FM – Brisbane/AUS), Radialista – Sonoplastia (SENAC), além de diversos cursos de composição, produção musical, áudio e acústica em escolas onde atuou também como professor. Atualmente vem apresentando cursos, palestras e workshops em importantes eventos e instituições de ensino, como a Campus Party Brasil, a Faculdade de Música do Centro Universitário FIAM-FAAM e a SAIBADESIGN, além de atuar como técnico de áudio no estúdio da Fábrica de Cultura Jardim São Luis.



 

KLAUS SCHULZE - Muito além do Kraut

POUCOS TINHAM ENTENDIDO A IMPORTÂNCIA DE ENCONTRAR UM EQUILÍBRIO ENTRE ESPAÇO E RITMO, ENTRE O ÊSTASE E O DINÂMICO, COMO SCHULZE. AO UNI-LOS, O MÚSICO DESCOBRIU UMA RESSONÂNCIA VITAL QUE SE ENCONTRAVA ESCONDIDA DURANTE MILÊNIOS NA ALMA HUMANA.

* Por Sergio Ferraz

Klaus Schulze é um dos pioneiros e 
mais geniais representantes da 
escola eletrônica de Berlin.

No final dos anos de 1960, a Alemanha vivia um cenário cultural rico e criativo. Jovens artistas davam os primeiros passos para a criação de uma música de vanguarda, que estava ao mesmo tempo antenada com as recentes descobertas dos músicos eruditos a exemplo da Elektronische Musik de Stockhausen, Musique Concrète de Pierre Schaeffer, bem como o Rock e o Jazz vindo da América do Norte.

Nessa linha, surgiram bandas como Can, Amon Düül II, Ash Ra Tempel, Faust, PopolVuh, Cluster, Harmonia, Tangerine Dream, Neu!, Kraftwerk, entre outros, representantes do assim chamado Kraut Rock, termo que mesmo rejeitado pelas bandas, passou a designar grupos e artistas da Alemanha do final dos anos 60 e início dos anos 70 que trabalhavam na linha Eletrônica, Minimalista, experimental.

O Kraut Rock pode ser visto como a contra partida alemã do Rock Progressivo Inglês. Enquanto este último tinha por base a textura polifônica barroca inspirada em Bach associada ao rock, o kraut mirava-se nas mais recentes tendências da música erudita.

As mais novas invenções tecnológicas da época a exemplo os sintetizadores analógicos da Moog; Moog modular e Minimoog, também a marca inglesa EMS, que lançou no início dos anos 70 o VCS-3, Synthi AKS, Synthi-A entre outros, possibilitou aos músicos explorar novos sons e texturas jamais antes ouvidas.

Concerto em Linz, Áustria, 
no ano de 1980.

Foi nesse ambiente fértil que Klaus Schulze, nascido em Berlin em 4 de agosto de 1947, deu sua contribuição no caminho para uma música que olhava para o futuro.

Em 1969, Schulze tocou bateria na primeira formação do Tangerine Dream, outro importante grupo do Kraut Rock, gravando naquele mesmo ano o primeiro álbum, Electronic Meditation. Em 1970, Schulze deixa o Tangerine Dream para formar o Ash Ra Tempel com Manuel Göttschingand e Hartmut Enke, outros importantes músicos da cena Kraut.

Manuel Göttsching, Rosi, Klaus Schulze, Hartmut Enke, 
Edgar Froese, Peter Baumann, Chris Franke - depois do 
concerto realizado em Paris, em 15 de fevereiro de 1973, 
integrantes das bandas Ashra Tempel e Tangerine Dream.

Um fato curioso em sua carreira: em 1976, Schulze foi convocado pelo percussionista japonês e compositor Stomu Yamashta para participar de um supergrupo, o Go, que também contava com a participação de Steve Winwood, Michael Shrieve, e ninguém menos que Al Di Meola! 

O Go teve vida curta, eles lançaram dois álbuns de estúdio (GO, em 1976 e Go Too, em 1977) e um álbum ao vivo (“Live from Paris”, gravado em 1976 e lançado no ano seguinte), que passou a se tornar um favorito cult.

Klaus Schulze desenvolveu um som mais orgânico do que outros artistas eletrônicos do seu tempo. Schulze também usa instrumentos acústicos, tais como guitarra acústica e uma voz operística masculina em Black dance (1974), ou um violoncelo em Dune (1979). Ele desenvolveu uma técnica no Minimoog que soa estranhamente como uma guitarra elétrica, que impressiona bastante em um concerto.

Ao longo de cinco décadas, Klaus Schulze lançou mais de 60 álbuns. Farei aqui um breve resumo dos discos mais importantes de sua carreira.

IRRLICHT (Ohr Records – 1972)

Foi então em agosto de 1972 que Klaus Schulze lança seu primeiro álbum solo, Irrlicht. O título completo, Irrlicht: Quadrophonische Symphonie für Orchesterund E-Maschinen (Sinfonia quadrifônica para orquestra e equipamentos eletrônicos). 

O álbum tem três faixas, ou três movimentos da peça e são:
1. Satz: Ebene 23:23
2. Satz: Gewitter (energy rise-energy collaps) 5:39
3. Satz: Exil Sils Maria 21:25

Irrlicht é extremamente ousado! Trata-se de uma composição instrumental complexa dividida em três partes. Schulze faz uso de closters orquestral, acordes de colorido impressionista, dissonância, atonalidade e espacialização sonora.

É surpreendente o fato que em Irrlicht, Schulze não fez uso de sintetizadores. A obra é composta com um órgão elétrico modificado, misturado a uma orquestra sinfônica com o som filtrado por um amplificador e invertido. Em outras palavras, Schulze fez uso de técnicas de composição eletroacústica e música concreta para compor Irrlicht, dessa forma aproximando muito mais o  álbum de um segmento eletroacústico do que do rock.  Fato que o próprio compositor admitiu: “Irrlicht ainda tem mais conexões com a Musique Concrète do que com a música eletrônica de hoje. Eu ainda não possuía sintetizadores naquela época.”

Em 2006, Irrlicht foi reeditado pela Revisited Records, como parte de uma série de álbuns do Klaus Schulze reeditado em edição especial.

Na edição de 2006, Irrlicht vem com uma faixa bônus, Dungeon, de 24 minutos.

CYBORG (Ohr Records – 1973)

Cyborg, gravado entre fevereiro a julho e lançado em outubro de 1973, segue o mesmo estilo do primeiro álbum. Em Cyborg, Schulze faz uso do sintetizador inglês da EMS Synthi A, órgão, percussão e a Colloquium Musica Orchestra. 

Cyborg também é dividido em três faixas. São elas:
1. Synphära 22:48
2. Conphära 25:51
3. Chromengel 23:49

Synphära é em andamento bastante lento, ouve-se os cellos em primeiro plano e a orquestra em textura polifônica tocando acordes a intervalos de segunda menor fazendo uma “cama harmônica” para os sons granular do synthi-A flutuar sobre a textura.

Em Conphära um pulso rítmico acelerado é gerado no sintetizador para servir de base “mântrica” a composição. Sobre o ritmo, Klaus Schulze desenvolve um tema cordal no órgão.  

Chromengel como Synphära é em andamento bastante lento. Sobre uma base estática Schulze desenvolve um tema cordal no órgão. A sonoridade do instrumento destaca-se nessa composição chegando a trazer uma aura barroca já natural do órgão. Aos poucos sons sintetizados aparecem ao redor criando um padrão rítmico. Uma paisagem eletrônica se faz em nossa mente.

Klaus Schulze é mestre em organizar os componentes sonoros equilibradamente em sua composição, nos dando a possibilidade de “ver” o desenvolvimento da paisagem sonora que forma-se e se transforma diante de nós, ou dentro das nossas mentes.

Cyborg também foi reeditado em 2006 pela Revisited Records numa edição especial com duas faixas bônus. São elas: “Neuronen gesang” 24:43  e “But Beautiful” com 50:55, essa última foi gravada ao vivo em um concerto em Bruxelas na Cathédrale St. Michel, em 17 de outubro de 1977.

TIMEWIND (Brain Records – 1975)

Timewind foi gravado de março a junho de 1975 e lançado em agosto daquele mesmo ano. É considerado por muitos a obra prima de Klaus Schulze, embora o autor discorde disso dizendo, segundo ele, que Timewind foi somente muito mais bem divulgado em todo o mundo do que seus outros trabalhos. Em minha modesta opinião, Timewind é, de fato, o álbum clássico – um dos melhores trabalhos já realizados do Kraut Rock.

Em Timewind, Schulze alcança maturidade em ideias que vinham sendo exploradas em seus trabalhos anteriores. Aqui os elementos da forma composicional estão lapidados, percebe-se com clareza o desenvolvimento temático da composição. Klaus Schulze em seu Timewind explora a forma expandida. Há apenas duas composições, cada uma tomando um lado inteiro do LP.  A primeira, “Bayreuth Return” com 30:32 minutos, e no lado B, “Wahnfried 1883” com 28:38 minutos. Ambas clara referência ao compositor alemão do século XIX , Richard Wagner.

Bayreuth é a cidade da Bavária onde Richard Wagner construiu sua monumental casa de ópera, e Wahnfried é o nome da residência do compositor em Bayreuth, onde Wagner foi sepultado no ano de 1883.

O álbum ganhou o prêmio Grand Prix du Disque da L'Académie Charles Cros, e, em 2002, “Timewind” e “Migare” (1977) foram incluídos na lista dos vinte e cinco melhores álbuns de Ambient Music de todos os tempos.

“Bayreuth Return” foi gravada em um gravador de dois canais em um único take, é basicamente “ao vivo no estúdio”.  A base da composição é um único padrão rítmico-melódico criado em um sequencer analógico, o padrão é transposto e manipulado em tempo real. A manipulação consiste principalmente de mudar o ponto de 'retorno' da sequência.

Esse foi o primeiro trabalho em que Klaus Schulze usou um Synthanorma Sequencer em suas composições. “Bayreuth Return” pode ser vista também como uma “raga indiana”. A base criada no sequencer em andamento rápido, é mantida durante toda a música enquanto elementos melódicos, harmônicos e texturas de síntese granular desenvolvem o grande tema meditativo e sereno até o grande êxtase final. Mais uma vez a maestria de Schulze em levar o ouvinte para um mundo de sons, como numa viagem a dimensões cósmicas além mundo... 

“Wahnfried 1883”, em contraste, é uma peça em andamento lento e clima solene, foi composta e gravada em multipista. “Wahnfried” nos leva para o sonho do “homem-superior” o übermensch de Nietzsche, a morada dos Deuses, a Walhalla de Odin e Thor. 

Destaca-se também a bela composição de timbres; do órgão Farfisa Professional Duo com os Elka String Synthesizer, ARP Odyssey e EMS Synthi-A. Sem dúvida, “Timewind” é uma obra de arte da música eletrônica de performance ao vivo!

Os instrumentos usados por Klaus Shulze em “Timewind” são: ARP 2600, ARP Odyssey, EMS Synthi-A, Elka String Synthesizer, Farfisa Professional Duo Organ e Piano, Synthanorma Sequencer.

“Timewind” também foi reeditado em 2006 pela Revisited records, numa edição especial com mais três musicas extras são elas:
1. “Echoes of Time” 38:42
2. “Solar Wind” 12:35
3. “Windy Times” (do Contemporary Works I) 4:57

Ao longo de cinco décadas, 
Klaus Schulze lançou 
mais de 60 álbuns. 

Outros álbuns na sua longa discografia que vale destacar por sua criatividade e ousadia composicional são: “Moondawn” (1976), “Mirage” (1977), “Dune” (1979), “Live” (1980), “Das Wagner Desaster Live” (1994), “Kontinuum” (2007), esses três últimos são álbuns ao vivo. 

Nos anos de 1980, Klaus Schulze começa a usar teclados digitais e sequencer tornando sua música mais acessível e menos experimental. Fato comum a muitos músicos, para não dizer quase todos que sobreviveram aos anos 80. Essa mudança para um estilo acessível, fica evidente no álbum “Trancefer” (1981).

Na década seguinte, destaque para “Beyond Recall” (1991). Os anos 90 é a época de predominância dos samples. Klaus Schulze usa uma ampla variedade de samples nas músicas dessa época.

Em 2005 Schulze inicia o trabalho de reedição de sua obra começando pelos álbuns clássicos da década de 1970. Também, nessa época, produz álbuns e realiza concertos em parceria com a cantora Lisa Gerrardt. 

Na década seguinte, lançou seu álbum quadragésimo (“Big in Japan: Live in Tokyo” 2010) em setembro de 2010. Klaus Schulze entrou em sua quinta década como um artista solo. Seu próximo álbum, “Shadow lands”, foi lançado em fevereiro de 2013. Logo em seguida, em março de 2013, Schulze lança gravações raras e inéditas da parceria Schulze-Schickert feitas em 1975.

Também em 2013, Klaus Schulze lamentavelmente anunciou que estava encerrando sua carreira de concertos.

Nos resta apreciar essa vasta obra, rica em elementos musicais diversos, minimalismo, harmonia expandida, atonalismo, eletroacústico, música concreta, eletrônico etc. Sem sombra de dúvida Klaus Schulze escreve seu nome na história da música como um dos desbravadores da música eletrônica muito além do kraut!



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* Sergio Ferraz é violinista, tecladista e compositor. Bacharel em música pela UFPE, possui seis discos lançados até o momento. Também se dedica a composição de músicas Eletroacústica, Concreta e peças para orquestra, além de ser colunista da Revista Keyboard Brasil.