sábado, 26 de março de 2016


A Paddymania de uma das figuras mais importantes da história da Polônia - IGNACY JAN PADEREWSKI

QUEM FOI IGNACY JAN PADEREWSKI? MUITO MAIS DO QUE UMA ESTRELA DA MÚSICA CLÁSSICA, O HOMEM DE CABELOS COR DE FOGO ERA ADORADO PELO PÚBLICO EM TODO O MUNDO. UM POLÍTICO FEROZMENTE PATRIÓTICO CONSIDERADO O "GEORGE WASHINGTON DA POLÔNIA". UM FILANTROPO INCANSÁVEL QUE LEVANTOU MILHÕES EM AJUDA PARA REFUGIADOS DE GUERRA. ESTES SÃO ALGUNS DOS ATRIBUTOS QUE O DISTINGUIU COMO UMA DAS MAIORES PERSONALIDADES DA CENA CULTURAL E POLÍTICA NA POLÔNIA E NO MUNDO, DURANTE A PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX. CONHEÇAM ESSE GRANDE HOMEM!
* Por Heloísa Godoy Fagundes


Quem foi Paderewski?
Ignacy Jan Paderewski criança 
aos 15 anos, sentado ao piano.


Diferentemente de sua vida profissional, a vida pessoal de Ignacy Jan Paderewski, (1860-1941) foi marcada por muito sofrimento. Cresceu sem mãe, seu pai foi preso, sua primeira esposa morreu aos 20 deixando-o um filho, de nome Alfred, portador  de uma doença incurável e um amor platônico pela princesa de Brancovan que nunca poderia acabar em casamento...

Contudo, Paderewski foi declarado o maior artista desde a época de Chopin. Um pianista tão famoso e popular que até mesmo o presidente americano Franklin Roosevelt chamou-o de “pianista moderno imortal”, em 1932. Embora desencorajado por seus professores para se tornar um pianista, Paderewski lançou sua carreira artística em 1885 e, literalmente, varreu o mundo com sua forma de tocar e sua personalidade dinâmica. 

Em 1923, recebeu o título de doutor honorário do grau em Direito pela Universidade do Sul da Califórnia por suas conquistas políticas. Outras universidades que honraram Paderewski incluem Lwów, Yale, Jagiellonian, Oxford, Columbia, Poznan, Glasgow, Cambridge, e New York University.

Em 1934, Charles Phillips escreveu um livro sobre Paderewski, cujo título era A História de um Moderno Imortal, onde a introdução, escrita por Statesman, orador, pianista e compositor, começou da seguinte forma: “É difícil escrever sobre Paderewski sem citar a palavra emoção. Ele é um homem superlativo, e seu gênio transcende o de qualquer pessoa que eu já conheci. Aqueles de nós que amam a Polônia estamos contentes por ela reclamá-lo como um filho, mas deixemos sempre lembrar que Ignace Jan Paderewski pertence a toda a humanidade”.

O início...
Um dos pianistas mais sensacionais dos tempos modernos, Paderewski recebeu treinamento musical precoce de Peter Sowinski. Seu primeiro concerto de piano para o público foi aos 11 anos de idade. Seu modo de tocar despertou interesse sendo levado para Kiev. Mais tarde, entrou para o Conservatório de Varsóvia, onde aprendeu a tocar trombone. Fez parte da banda da escola, continuando seus estudos pianísticos. Em 1875, visitou as cidades russas provinciais com o violinista polonês Cielewicz e, em 1878, foi contratado para ministrar aulas de piano no Conservatório de Varsóvia. Em 1882 Paderewski foi para Berlim estudar composição com Kiel e, subsequentemente. orquestração em Berlim com Heinrich Urban. Foi lá que ele conheceu Anton Rubinstein, reiniciando seu emprego de professor mudando-se para Viena onde estudou com Leszetycki (Leschetizky).

O famoso virtuoso...
Esquerda: Ignacy Jan Paderewski e 
Camille Saint-Saëns em 1900. 
Direita: Paderewski e sua esposa.


Adorado, admirado e amigo, não apenas pelas pessoas mais importantes de sua época, mas por pessoas de todas as esferas da vida. Viajou por todo o mundo a partir de África para a Austrália e em todo o continente europeu; cruzando o Atlântico mais de trinta vezes. Realizou mais de 1500 concertos nos EUA, recebido por multidões em um momento em que o recital solo ainda estava em sua infância. Paderewski foi o primeiro a dar um recital sozinho no recém-construído Carnegie Hall, em Nova York, com aproximadamente 3.000 pessoas na plateia. Um grande showman!

Por que era tão popular?
A carreira musical de Ignacy Jan Paderewski 
estendeu-se por mais de 50 anos. Acompanhando 
sua popularidade, veio o sucesso financeiro 
destinado às atividades públicas. Em 
reconhecimento ao mérito artístico e patriotismo 
sua figura tem recebido inúmeros prêmios até hoje. 

Por que ele era tão popular? Uma razão era a sua aparência física magnífica. Admiravam seus longos cabelos vermelhos. O termo “long haired music” pode ter se originado com ele. Muitos músicos tentaram imitá-lo, usando chapéus, casacos longos e cabelos compridos. Doces, brinquedos e sabonetes foram criados com sua imagem. 

A aparência de Paderewski, junto com seu refinamento aristocrático e poder sobre as massas foi certamente o que o transformou em uma pessoa tão popular. Porém, a principal razão para sua popularidade eram seus magníficos recitais. Cada um considerado um “acontecimento espiritual.” Conhecido por ter aperfeiçoado o toque que poderia literalmente fazer o piano cantar e suas representações musicais, não importando o quão diferente poderiam ser, foram frutos de estudo profundo e sério.

Mesmo sendo criticado por alguns pelo uso excessivo de "tempo rubato", isso pode ser facilmente explicado: Paderewski pertencia ao último grupo de pianistas “românticos”, cujo estilo foi se tornando fora de moda e não utilizada pela nova geração de pianistas. No entanto, ele continuou a usar estes dispositivos, a fim de conseguir efeitos dramáticos.


Paderewski foi considerado o melhor intérprete das obras de Chopin de seu tempo e ninguém poderia tocar as Rhapsodies do húngaro Liszt como ele fazia.


Admirado...
Em Nova York, durante uma turnê pelos Estados Unidos 
no ano de 1932. Da esquerda para a direita: Edward S.
Witkowski, presidente da recepção em homenagem ao 
músico; Sylvine Strakacz, secretário pessoal; S. Mann,
diretor do City Hall  e o músico Ignacy Jan Paderewski.

Paderewski inspirou artistas, poetas, pintores e compositores. O mais famoso retrato dele foi feito por Sir Edward Byrne-Jones, que acidentalmente passou por ele na rua um dia. Voltou para casa dizendo que tinha visto um arcanjo e começou a esboçar a partir da memória. Poucos dias depois, Paderewski foi levado para o estúdio do artista que gritou: “Você é meu arcanjo!” E, em duas horas, o pintor completou o retrato. Richard Gilder e John H. Finley compuseram poemas para Paderewski.  Compositores como Edward Elgar dedicaram obras a ele. 

Paderewski compôs várias dezenas de obras que incluem duas óperas, uma sinfonia, duas peças orquestrais, várias canções e muitas, muitas peças para piano. Suas duas obras para piano mais poderosas e criativas são a Sonata, op. 21 e as Variações e Fuga, op. 23. Ele também fez uso de ritmos de danças polonesas em muitas de suas composições. Ao longo de sua música pode-se ouvir os idiomas nacionais do seu país. Duas das mais populares peças para piano em miniatura que ele incluiu em seus próprios programas foram o Cracovienne Fantastique e Chants du Voyageur, op. 8.


Na Polônia, muitos ouviram seu famoso Minueto em Sol. Ente 1920 e 1930, todos os pais aguardavam o dia em que seu filho poderia, finalmente, realizar o Minueto em um recital local. Este foi o objetivo de toda criança nas aulas de piano e, por isso, é considerado um marco de sua realização. 


O modelo humanitário...
Funeral de Ignacy Jan Paderewski em 3 de julho de 1941, 
na cidade de New York.


Paderewski precisou retomar sua carreira pianística em 1923 por razões financeiras, mesmo tendo ganhado muito dinheiro, mais do que qualquer artista. E por que? Simplesmente porque entregou tudo o que tinha para seu país e para a humanidade. Já em 1895, ele fundou o Paderewski Fund, em Nova York para estabelecer prêmios trienais para compositores americanos, independentemente de raça ou religião. Alguns desses vencedores foram David Diamond, Gardner Reed e Wallingford Rieger. Também estabeleceu um fundo semelhante para Composição em Leipzig, em 1898. Em Londres, ele ajudou o Transvaal War Fund para os feridos, viúvas e órfãos da guerra. Para expressar gratidão a Herbert Hoover e outros americanos, ajudou com seu Polish Relief Fund, entregando os ganhos de uma série de concertos para a compra de comida aos desempregados americanos na década de 1920. Em 1932, tocou para um público de 16.000 no Madison Square Garden, o maior público da história da música na época, arrecadando $50.000 em benefício aos músicos americanos desempregados.   


Ao longo dos anos, Paderewski fez contribuições substanciais para várias causas: para músicos desempregados na Inglaterra, fundos para dramaturgos, compositores poloneses, para a construção de uma sala de concertos na Suíça, para a reconstrução de uma catedral em Lausana, para os trabalhadores desempregados, para os órfãos na Itália em tempos de guerra, para a construção de dormitórios para estudantes de música na França, para o Hospital do Soldado Allied, para refugiados judeus-alemães, vítimas de Hitler, em Paris no ano de 1933 e tantas outras. Sua maior contribuição individual ($28,600) foi destinada à Legião Americana de veteranos deficientes. 


O patriota...
Ignacy Jan Paderewski: primeiro ministro da Polônia 
independente depois da Primeira Guerra Mundial, 
além de virtuoso pianista, compositor, diplomata, político, incansável ativista e um modelo humanitário. 


Suas amizades com muitos dos principais estadistas da Europa e América abriram o caminho para a futura atividade política. Em questão de poucos anos, Paderewski passou a ser considerado um dos peritos em assuntos relacionados aos problemas da Polônia. 

Através de suas mãos de pianista, Paderewski conquistou e ajudou a moldar uma Polônia independente em 1918, após a Primeira Guerra Mundial. O país que tinha sido varrido do mapa no século XVIII e era dividido por seus vizinhos Prússia, Rússia e Áustria, agora gozava da restauração da soberania do povo polonês.


Em 1919, tornou-se o Primeiro  Ministro da Polônia independente, bem como Ministro dos Negócios Estrangeiros e representante da Polônia na Liga das Nações em Genebra. Seus discursos foram considerados entre as melhores realizações de oratória da Liga. Muitos expressaram, por unanimidade, sua opinião em uma carta conjunta: “Nenhum país pode desejar um defensor melhor”.

Em 1920, Paderewski recebeu uma ovação em pé antes e depois de seu discurso, falado em francês e em inglês. Para seus colegas, Paderewski era um grande estadista, um orador incomparável, um linguista brilhante que deu ao mundo, um exemplo de patriotismo e coragem e de grande caráter humano. 


Incansável artista, ativista...
Desde 1992  o  corpo de Ignacy Jan Paderewski 
se encontra enterrado na Royal Crypt of the 
Warsaw Cathedral, Polônia.


Registrando para a posteridade, no ano de 1936, Paderewski fez um filme produzido por cineastas britânicos chamado Moonlight Sonata retratando-se em um recital de obras de Beethoven, Chopin, Liszt e sua Menuet. O músico foi tão bem quisto por todos os que entraram em contato com ele durante as filmagens que foi inundado com flores como forma de homenagem e gratidão. Na época, Paderewski tinha 76 anos de idade.


Após a eclosão da Segunda Guerra Mundial, Paderewski realizou, em 1939, uma campanha antinazista de sua casa na Suíça. Embora enfrentando problemas de saúde, Paderewski viajou para Paris e inaugurou um novo governo, com a única objeção: não ser identificado como primeiro-ministro novamente. Sua casa na Suíça era um lugar de refúgio para os emigrantes de muitas nacionalidades durante a Segunda Guerra Mundial. Ninguém foi mandado embora sem ter sido alimentado.

Apesar de viver na Suíça, Paderewski voltou para os EUA para continuar os esforços em ajudar a causa polonesa. Porém, em Nova York, alguns dias depois enfrentando um clima extremamente quente, Paderewski ficou doente e faleceu. Seu funeral na Catedral de St. Patrick, em Nova York, no ano de 1941, teve a participação de 4.500 pessoas em seu interior e 35.000 do lado de fora, incluindo estadistas e líderes do mundo político e musical. Por decreto presidencial (uma medida tomada apenas uma vez antes na história dos EUA), foi enterrado no cemitério de Arlington, em Washington.

Em 1992, o corpo de Paderewski foi devolvido para a Polônia e enterrado na Royal Crypt of the Warsaw Cathedral, numa cerimônia presenciada pelos presidentes da Polônia e dos Estados Unidos.

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* Heloísa Godoy Fagundes é pesquisadora, ghost Writer, há 10 anos no mercado musical de revistas. Já trabalhou na extinta Revista Weril e agora é publisher e uma das idealizadoras da Revista Keyboard Brasil - publicação digital pioneira no Brasil e gratuita voltada à música e aos instrumentos de teclas.









Um comentário:

  1. Belíssima história de um homem que lutou pelo bem do seu país utilizando a música!

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