segunda-feira, 27 de junho de 2016


ERIK SATIE: 150 ANOS DE UM PRECURSOR 
ERIK SATIE AINDA SE APRESENTA COMO ALGUÉM QUE NOS FAZ RIR E SONHAR, MESMO 150 ANOS DEPOIS DE SEU NASCIMENTO!
* * Por Maestro Osvaldo Colarusso


Mesmo 150 anos depois de seu nascimento, o compositor francês Erik Satie ainda permanece jovem, iconoclasta e questionador. Precursor da harmonia impressionista, do surrealismo, do minimalismo e, até mesmo, do Teatro do absurdo (talvez o pai espiritual de John Cage) foi dos raros compositores que teve uma existência marginal, fora de qualquer padrão burguês. Nenhum compositor importante teve uma vida boêmia como ele, nos padrões do famoso atelier “Bateau Lavoir”, no bairro de Montmartre, em Paris, que serviu de refúgio para artistas que eram ainda alternativos no final do século XIX, como Picasso, Modigliani, Max Jacob, Apollinaire e Derain. Ele vivia numa casa modesta a poucas quadras do “Bateau Lavoir” (uma fábrica de pianos abandonada) e conviveu assumidamente este tipo de vida excêntrica. Stravinsky, que conheceu Satie em 1911, se referia a ele como o ser mais diferente e incomum que conheceu em toda a sua vida.

Do canto gregoriano ao cabaré

Nascido na Normandia em 17 de maio de 1866 teve ainda como menino uma educação musical bastante afastada do corriqueiro: foi aluno de um certo Monsieur Vinot que baseou seu trabalho com o jovem apenas no canto gregoriano. Isso, sem dúvida, explicará o modalismo de sua linguagem e um tipo de misticismo secreto do qual nunca se afastará: ele próprio fundará uma igreja mais tarde, a “Igreja Metropolitana da Arte de Jesus Dirigente”, da qual ele será o único adepto… Sua madrasta até tenta colocá-lo num tipo de formação musical mais convencional, mas ele escapa do conservatório se engajando voluntariamente…no exército. Sua saúde frágil o fará renunciar à carreira militar e, em 1887, compõe suas primeiras obras importantes, todas visivelmente influenciadas por esse ideal sonoro que poderíamos chamar de arcaico. Suas Quatro Ogivas para piano, com seus cantos gregorianos acordes paralelos e sem compassos definidos, encarnam a atitude mais rebelde possível ao Conservatório de Paris, templo da educação musical rígida e conservadora. Suas Três Sarabandas, de 1887,  traçam definitivamente o tipo de harmonia que compositores como Debussy e Ravel utilizarão.

Debussy e Satie. Foto tirada por Stravinsky

É desta época sua obra mais popular, as Três Gymnopédies também para piano. Assim como suas Três Gnossiennes, escritas na mesma época, temos aqui uma música absolutamente “zen”, que revela caminhos originais e inusitados. 

Debussy e Stravinsky em foto tirada por Satie

O experimentalismo mais radical de Satie se manifesta nesta época em sua obra Vexations, uma curta partitura de piano que deve ser executada 840 (!) vezes, algo que deve levar entre 9 e 10 horas. Mesmo tocando todas as noites em cabarés famosos como “Le divan japonais” e “Le chat noir”, sua situação financeira ficará tão ruim que será obrigado a abandonar Montmartre passando a viver num subúrbio da capital francesa (Arcueuil). Mas, continuará a frequentar Montmartre todas as noites voltando para casa de madrugada a pé (cerca de 5 quilômetros) caminhando sempre com um “ameaçador” martelo para espantar os ladrões… 

Pano de boca para "Parade" pintado por Picasso

Em 1905, decide aprimorar sua formação musical entrando na Schola Cantorum tendo sido aluno de Albert Roussel e Vincent D'Indy. É depois deste período, em 1915, que Satie conhece Jean Cocteau. Junto a ele, Satie abre o caminho para o surrealismo. Prova disso é a genial música que ele escreve para o Ballet “Parade” em 1917, cujo argumento era também de Cocteau.

Renee Clair e Erik Satie, 1924.

Junto à orquestra estão máquinas de escrever, um revólver e globos giratórios de loteria ajudando a contar a história de uma garota americana, dois acrobatas e um Prestidigitador chinês. A estreia com cenários e figurinos de Picasso e regência de Ansermet foi um escândalo tão grande ao que aconteceu em 1913 com a criação de “Le sacre du printemps”. O surrealismo anunciado nesta obra terá, 7 anos depois, uma sequência fantástica: Relache, trilha sonora para um curta do cineasta René Clair. O compositor chamava esta obra de “Ballet instantanéiste”. Ele falece em julho de 1925. Satie, que desde jovem tinha um aspecto de idoso, chega a nós como o mais iconoclasta e juvenil dos grandes compositores. 150 anos depois de seu nascimento se apresenta ainda como alguém que nos faz rir e sonhar.

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Osvaldo Colarusso é maestro premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Esteve à frente de grandes orquestras, além de ter atuado com solistas do nível de Mikhail Rudi, Nelson Freire, Vadim Rudenko, Arnaldo Cohen, Arthur Moreira Lima, Gilberto Tinetti, David Garret, Cristian Budu, entre outros. Atualmente, desdobra-se regendo como maestro convidado nas principais orquestras do país e nos principais Festivais de Música, além de desenvolver atividades como professor, produtor, apresentador, blogueiro e colaborador da Revista Keyboard Brasil.
** Texto retirado do Blog Falando de Música, do jornal paranaense Gazeta do Povo.








3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Ótima matéria!!! Acho simplesmente notável a vida e a obra de Eric Alfred Leslie Satie. Parabéns!

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    1. Muito obrigada por sua mensagem Leonardo! Nosso querido colaborador, maestro Osvaldo Colarusso possui um Blog sensacional. Se quiser conhecer basta clicar: http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/falando-de-musica Abraço! Heloísa.

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